O trunfo da DreamWorks face à Disney, ou seja, a aposta no humor para adultos em filmes infantis é algo que acho que já dava para identificar nos desenhos animados da Disney, ainda que muito subtilmente, muito antes de Shrek vir à baila como ponto de viragem do conceito de filme de animação.
- Em Doug (1991-1994 e depois 1996-1999), a Disney subscreve o primeiro Nicktoon (antecedendo The Rugrats - que merecia um post- e The Ren & Stimpy Show- ver dois posts a baixo) e aquele que seria o maior hit da Nickelodeon. E acaba por ser um início de mudança e adaptação a novos valores, a novas infâncias.
Em Portugal, a versão da Nickelodeon passava na TVI e a da Disney viria a passar no Clube Disney (RTP1) ou no Disney Kids(SIC) - confesso que já não sei com exactidão, mas pla cronologia deve ter sido no Clube Disney.
Eu preferia a versão da Nickelodeon, porque detesto alterações nas histórias e nas dobragens. Além de que o Doug da Nickelodeon era mais negativo, era pessimista e deprimido. Assombrado, de certo modo. Eu gostava disso (com a idade que tinha, não percebo porquê, mas sei que gostava). E a Nickelodeon sempre teve menos pudor que a Disney, veja-se Hey Arnold! ou Aaahh!!! Real Monsters: a Nickelodeon não tem a preocupação com O perfeito: desde as ilustrações à carga emocional de cada personagem, os desenhos animados da Nickelodeon são "mais pesados" que os da Disney.
- Em Pepper Ann (1997), a Disney repete e subscreve a criação de uma ex-Nickelodeon, Sue Rose.
Acho que Pepper Ann dificilmente teria sido inventada por um homem porque a mensagem de Pepper Ann é absolutamente feminista. A ideia era essa. Tal como Doug, Pepper Ann está a entrar na adolescência, também tem 12 anos. Mas, enquanto Doug é introvertido (típico da idade do armário), Pepper Ann is a go get it.
Filha de pais divorciados, vive com a mãe (feminista) e o irmão, anda de patins, é maria- rapaz e tem por melhores amigos Milo, um rapaz sossegado ainda que excêntrico e com muita queda para as artes (num episódio Pepper Ann chama-lhe MiloAngelo) e Nicky, a inteligente, culta, bem-falante, que sabe tudo sobre História e toca violono - Nicky. O único inimigo é o Director da escola. Há ali muito Parker Lewis plo meio.
Não tenho grandes dúvidas quando digo que a Kim Possible tem alguma base na Pepper Ann.
Acaba por ser o fim das princesas Disney enquanto donzelas indefesas.
- Em Dave, o Bárbaro(2004), a personagem é construída ao estilo do Leão de O Feiticeiro de Oz - tem tudo para meter medo, mas quem tem medo de tudo é o próprio. Além disso, é subvertida a ideia do herói de guerra másculo: Dave sobe para cadeiras se vê um rato, dave faz a lida da casa, a irmã mais nova é mais tough que o próprio e o episódio que me ficou foi aquele em que Dave acorda e grita, feliz, que é dia de limpezas de Primavera... Pelo meio há espaço para uma irmã mais velha vaidosa, um tio que é um péssimo mágico e um pet horrendo.
Só ainda não consegui perceber porque é que a Disney mantém o conceito antigo nas séries para crianças. Hannah Montanna e Jonas Brothers são lixo putrefacto que continua cultivar a futilidade e a hipocrisia na ideia de que (metendo Fight Club pelo meio) vamos todos ser ricos, bonitos, estrelas de cinema e que qualquer outra forma de existência é inferior.
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