...porque nada é simples ou absoluto, mas todos nos julgam como se fosse. E o se não estás connosco estás contra nós é muito primário: o facto de reconhecer um diagonóstico como verdadeiro, não faz com que vá levantar a receita passada, se duvidar da qualidade dos medicamentos, validade e eficácia da própria receita.
Começando pelo princípio, foi mais ou menos isto que respondi quando me perguntaram pela primeira vez se ia:
3. - Por último, convido a ler o manifesto de convocação para a manifestação de amanhã, que circulou por email. É um manifesto entre o reaccionário e o esquerdismo primário, centrado na defesa do corte das despesas públicas, com um tom de populismo moralista. Um manifesto que defende a "diminuição do número de deputados" (ponto 2), uma "redução drástica dos Municípios e Juntas de Freguesia" (6 e 7), "controlar o pessoal da Função Pública" (14), para além de defender diminuições de salários e de postos de trabalho na RTP e o acabar com a subvenção à mesma televisão (20 e 21). Pergunto se são estas as questões mais importantes para a actual geração? Pergunto se partidos como o PCP e o BE estarão na manifestação a apoiar estas medidas? E se não apoiam, então o que é que lá estão a fazer?
O manifesto não contém nenhuma referência aos jovens, nem à palavra desemprego, ou à palavra licenciado. Não refere a precariedade, não fala de criar empregos. Fala principalmente de acabar. A palavra "acabar" surge 15 vezes, sendo aplicada às instituições públicas em geral, empresas municipais, financiamento dos partidos, motoristas, salários, lugares na RTP, ordenados, reformas, renovação das frotas e PPP.
Este é um manifesto que se esquece de referir os problemas dos jovens e que não aponta soluções para os mesmos. Este manifesto não está à altura de uma geração que, com todas as dificuldades que tem, é também a mais qualificada e capaz que Portugal alguma vez teve. Uma geração que merece melhor destino do que ser colada a um manifesto tão "rasca".
Culpo a minha experiência no associativismo estudantil e, concretamente, a minha experiência enquanto manifestante, pla posição que imediatamente tomei e da qual ainda nenhum argumento me conseguiu demover, mas que me tem tomado horas de discussão.
É engraçado que a Wikipedia (perdoem-me as fontes, mas não tenho qualquer intenção de fazer doutrina) dê a seguinte definição:
As manifestações têm o objetivo, de demonstrar (em geral ao poder instalado) o descontentamento com algo ou a respectiva promoção em relação a matérias públicas. É habitual que se considere a manifestação um êxito tanto maior quanto mais pessoas participarem. Os tópicos das manifestações são em geral do âmbito político, económico, e social.
Se é assim, temos campeão.
Eu, pessoalmente, adopto uma perspectiva...vá: funcionalista (?). A manifestação não é um momento. Uma manifestação tem vários momentos, e eu identifico pelo menos 3, sendo o mais determinante aquele que a antecede. Assim, a fase de organização, enquanto momento prévio, é fundamental para que exista um depois, porque o durante é muito difícil de controlar, como o são todos os fenómenos de grupo e, por isso, é fundamental que se fixe um objectivo final claro e exequível - reivindicável, portanto. E mais que tudo: sério. A seriedade e correcção são factores de credibilização.
Na sua falta, não se pode esperar um depois, ou seja, não se podem esperar resultados, resposta às reivindicações.
Qual o sentido da manifestação, entao? Têm-me dado vários:
1. Demonstração de força
2. Expressão de descontentamento,
3. Solidareadade geracional,
São os mais frequentes. Mas parecem-me todos etéreos, expressões transitivas: todas elas seriam razões acessórias a um objectivo principal, não bastando, por si, para dar sentido à manifestação.
Sem esse sentido, organizar um encontro de pessoas na Av. da Liberdade é desvalorizar o trunfo que a manifestação pode ser noutros casos, banalizá-la, retirar-lhe impacto.
E um pequeno exemplo do pragmatismo que defendo e da sua ausência no movimento "Geração à Rasca" é precisamente o incidente de Viseu
*Muitos caracteres depois, diante do pelotão de fuzilamento, Inês Cisneiros haveria de recordar aquele dia...*
absolutamente desnecessário quando o movimento está a conseguir tanta mobilização. A muitos terá indignado; a mim confirmou-me várias suspeitas quanto à falta de savoir faire de quem está por trás do movimento.
Isto é só um dos lados da questão, é certo, mas para mim foi decisivo, quando o tempo me é escasso e a verdade é que - também eu - preciso de estudar.
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